'Sabores, Sons e Memórias': Reinado do Rosário transforma Itapecerica com fé, cultura e tradição há mais de 200 anos
reinado de Itapecerica - Foto registrada em Agosto de 2026 Danilo Moreira/Divulgação Por alguns dias de agosto, Itapecerica se transforma. O som dos tambores ...
reinado de Itapecerica - Foto registrada em Agosto de 2026 Danilo Moreira/Divulgação Por alguns dias de agosto, Itapecerica se transforma. O som dos tambores toma conta das ruas, os cortejos percorrem o centro histórico e os integrantes das guardas vestem roupas coloridas para cumprir uma tradição que atravessa séculos. O Reinado do Rosário é uma manifestação de fé, memória, identidade e resistência que faz parte da história da cidade há mais de 200 anos. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Centro-Oeste de Minas no WhatsApp Há registros da organização do Reinado em Itapecerica desde 1818, quando ainda existia a Vila de Tamanduá. Ao longo desse período, a celebração passou por transformações, interrupções e ressignificações, mas sempre permaneceu ligada à devoção a Nossa Senhora do Rosário e à cultura das comunidades negras. 🔎 Vila de Tamanduá: Formalmente chamada de Vila de São Bento do Tamanduá, é o antigo nome histórico do atual município de Itapecerica. O que hoje reúne congadeiros, reis, rainhas, príncipes, princesas e integrantes de diferentes guardas pelas ruas de Itapecerica nasceu em um contexto marcado pela escravidão e pela necessidade de preservar tradições, crenças e formas de organização trazidas pelos africanos e reconstruídas no Brasil. Esta é a segunda reportagem da série especial “Sabores, Sons e Memórias” sobre a cidade de Itapecerica. Em cada capítulo, o g1 revela diferentes aspectos da história, da cultura e das tradições que ajudam a contar a identidade do município. Reinado de Itapecerica durante almoço oferecido aos integrantes do Reinado de Itapecerica Anna Lúcia Silva/g1 História viva do Reinado Para entender o que significa o Reinado do Rosário para a cidade, é preciso mais do que conhecer datas e personagens históricos. É preciso ouvir quem o vive. Aos 77 anos, Anielo Antônio D'Alessandro é uma dessas pessoas. Consagrado Capitão-Mor do Reinado do Rosário de Itapecerica, ele participa das festividades há mais de cinco décadas e carrega na memória histórias que ouviu do pai, dos avós e de antigos capitães. Uma herança que atravessa gerações. “Eu tenho o prazer de participar daquela turma do Seu Joaquim, daquela safra dos bons dançadores. Geraldo, Alessandro, Umberto, Zé Pistode, Zé Terceiro, João Sabininho e tantos outros. Nós tínhamos o prazer de ver o meu pai cantar e tínhamos vontade de ser um capitão igual ao nosso pai. Cheguei a ser capitão porque ele me ensinou”, contou ao g1. Segundo Anielo, a origem da manifestação está diretamente relacionada à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Os festejos aconteciam em aldeias e mocambos. A fé, naquele contexto, também era uma forma de resistência. “Eles tinham muito receio porque, naquela época, os patrões vigiavam muito. Mesmo assim, eles tinham a fé de acreditar que Nossa Senhora era a mãe deles”, contou. Anielo Antônio D'Alessandro - Capitão Mor do Reinado em Itapecerica Prefeitura de Itapecerica/Divulgação A devoção dos negros a Nossa Senhora do Rosário passou a dialogar com elementos do catolicismo trazidos pelos colonizadores. Segundo Anielo, os escravizados foram sendo catequizados e incorporaram santos católicos à própria tradição. “Os donos dos escravos começaram a pedir aos padres catequistas da época para catequizá-los. Então começou o Reinado, associando Nossa Senhora do Rosário aos santos, aos guias de lá, com os santos da Igreja Católica, como São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Foi assim que os negros foram se filiando às Irmandades de Nossa Senhora do Rosário". Dos ternos de Mouros e Moçambique às guardas atuais O Reinado de Itapecerica também é formado por diferentes guardas, cada uma com seus instrumentos, cantos, personagens e formas próprias de expressão. Anielo lembra que, no início, havia o Terno de Moçambique e o Terno de Mouros. “O Terno de Mouros representava a guerra dos cristãos contra os mouros. O Moçambique representa aqueles negros que foram buscar Nossa Senhora para ela pousar na beira do mar. É muito antigo”, explicou. O Terno de Mouros, porém, deixou de existir. Atualmente, segundo o Capitão-Mor, os ternos que formam a base da celebração são Moçambique, Congo, Vilão, Catupé e Marinheiros, também chamados de Marujadas. Pelas ruas de Itapecerica, são os sons dos tambores que anunciam a passagem dos grupos. Os cantos, os instrumentos, as roupas e os movimentos formam uma manifestação em que religiosidade, cultura e memória caminham juntas. Reinado em Itapecerica representa cultura e fé Danilo Moreira/Divulgação Histórias que se confundem Para Anielo, a história do Reinado não pode ser separada da própria história de Itapecerica, que está entre os municípios mais antigos de Minas Gerais. “Como aqui foi um município onde houve a exploração do ouro, a mineração e a lavoura, aqui tinham os grupos negros. Então foi muito importante esse ciclo. E Itapecerica é o berço do Congado. A história diz que foi daqui que o Reinado foi irradiado para outras regiões do nosso estado”, afirmou. Para ele, a manifestação também ajuda a preservar a memória da população negra e a história da escravidão. Reinado de Itapecerica Anna Lucia Silva/ g1 Um dos momentos mais marcantes do Reinado de Itapecerica é a encenação da Abolição, incorporada à celebração em 1957 por iniciativa de José Gomesinho, antigo comandante do Reinado e uma das principais referências da manifestação. “Ele dizia que era preciso mostrar a escravidão, mostrar as cenas, para o povo ver que os negros sofriam antigamente”, conta. Na celebração, a Princesa Isabel aparece relacionada à memória da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888. Já Chico Rei representa, dentro da tradição, a resistência e a preservação da identidade africana diante da escravidão. No Reinado, essas referências históricas ganham significado próprio. Não são apenas personagens dos livros, mas elementos de uma memória transmitida de geração em geração. Muito além de uma festa É justamente essa combinação entre fé, história e memória que faz o Reinado ocupar um lugar tão importante na identidade de Itapecerica. A manifestação não se resume aos dias de cortejo. Ela envolve famílias, comunidades, preparação, ensaios e um conhecimento transmitido de geração em geração. Reinado em Itapecerica representa fé e resistência Danilo Moreira/Divulgação Anielo reconhece, porém, que parte dos jovens já não se envolve com a tradição da mesma forma que as gerações anteriores. “Hoje, os meninos não têm aquele prazer de acompanhar uma guarda, de ouvir o capitão cantar para a Coroa, para Nossa Senhora do Rosário, para o rei, para a rainha, para o príncipe, para a princesa e para os moradores. Não tem, infelizmente”, afirmou. LEIA TAMBÉM: Sabores, Sons e Memórias': Aos 103 anos, Dona Nem vive cercada por dois séculos de história em casarão de Itapecerica Para que a tradição continue viva, há um esforço constante para aproximar a população dos festejos. Mais de dois séculos depois dos primeiros registros, os tambores continuam ecoando pelas ruas de Itapecerica. Em Itapecerica, o Reinado não pertence apenas ao passado. É uma memória que continua caminhando pelas ruas, ao som dos tambores, guiada pela fé e pelas mãos de quem aprendeu que tradição só permanece viva quando alguém se dispõe a ensiná-la. Reinado de Itapecerica Anna Lúcia Silva/ g1 VÍDEOS: veja tudo sobre o Centro-Oeste de Minas